quarta-feira, 28 de outubro de 2009


Na espera da sutil sombra dos momentos sou a espreita
Das folhas que nascem de mim colho a luz renegada
Há uma porta sempre entre aberta na crepuscular lágrima
Um chão de caminho cansado ainda espera os meus passos

Dirão que não fui a suficiência das águas-vivas
Dirão que o meu livro esteve exilado do teu estante
Dirão que o poema da tua pele suava saudades mortas
Dirão que o meu desejo sempre foi infinito e casto

Que sentirão na hemorragia do dia sem mistérios?
Que farão quando os espinhos sangrem as metáforas?
Quem vestira as vestes da paixão na tarde nua de mim?
Quem escapará do incêndio da razão e do medo e ainda assim cantará?

Observo-te em silêncio quando as cores dormem
Estático meus movimentos congelam o poema da tarde
Como uma felina imagem meu olhar te busca
Já é hora da partida aonde as marés vão sem destino certo

A poesia renasce e eu te espero.
Flavio Pettinichi-27-10-09

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A partir de agora

A partir de agora daremos outro sentido às palavras
ADEUS terá sentido de cor verde numa tarde primaveral
SAPATO terá gosto de torta de morango roubada da janela
A partir de agora as palavras terão o silencio da noite voraz

A partir de agora os sentidos serão sensações pictóricas
VER se tornara textura de limo e sal pintada na pedra do mar
TOCAR há de ser o pincel que recria o ato de amar e se doar
A partir de agora os sentidos serão feitos para voar

A partir de agora o TEMPOserá só poesia e cantar
Não haverá hora para almoçar, comeremos o sol e o luar
Os relógios serão instrumentos melodiosos para sonhar
A partir de agora a ESPERA é um barquinho de papel para navegar

A partir de agora todo o que queiramos,como milagre, acontecerá
Seremos crianças, flor, livro, uma rua deserta ou azul do mar
Brincaremos de balão no céu da boca e pularemos do teto salarial
A partir de agora o NUNCA, será a flor e a tão ansiada paz.

A partir de agora o HOMEM não será homem nem mulher
Será a espiga que cresce no campo de trigais e florescerá
Terá como nome uma estrela e como apelido o amanhecer
A partir de agora o homem não se reconhecerá como tal, será SER



foto outubro 2009
Flavio PettinichiJunho 2008-06-20

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Algo de mim recria o que foi o dia
Algo de mim adormece as sombras
Um claro espanto de taciturna espera
Uma tênue ruptura entre ser e estar

Quase verbo o som das lembranças
Absoluta inconseqüência o destino
Nada me atrai além do sutil horizonte
Arregaçado contra o vento, voa meu silêncio

Nada acorda a sonolência das ondas
Todo é estrondo no instante do medo
Caminhos e subterfúgios fogem de mim
Sem sentidos colho metáforas etéreas

Um passado incandescente incendeia sonhos
Como a tormenta que antecede a calmaria
Sou o paradoxo da palavra emudecida
Sou toda matéria que viva espera o recomeço

Não há morte na vida do sagrado poema
Toda flor e sempre indescritível primavera
Não há espaço no cosmos da poesia incerta
Todo átomo é sutil leveza da estrofe e da letra.

Flavio Pettinichi
21 de julho de 2008 -Foto do autor : outubro 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Foi então que abri a minha alma e brotaram ventanias
Alucinados arco-íris tatuavam-se no que era tua pele
Marés de um sonho infinito arrastavam minha voz
Tuas vestes, como bandeiras, flamavam na colina

Tempos onde o tempo era semente de selvagem flor
Palavras como nuvens esvaindo na calmaria da noite
Livros abertos onde as poesias dormiam com borboletas
Frutos maduros e campos dourados o nosso instante eterno

Foi então que teu plexo exalou a fragrância das águas
Gemidos suaves como pinceladas de um esboço do amor
Luas, cometas, asteróides e distantes planetas a nossa constelação
Minha incógnita se exilou na incandescência dos corpos

Há uma cama onde florescem poemas e estrelas
Há uma janela que espera o silêncio que chega de dentro
Há um desejo pousado na flor da esperança
Estamos nós rindo do mistério das almas.

Flavio Pettinichi- 25-10-09

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Agora

Alguém nesta clara noite escurece os sonhos
Alguém neste instante joga sua sorte no baralho
marcado
Alguém está perdido no meio do seu interior
Alguém procura seu canto e atordoa os ventos

Alguém lê em livro profano e mente orações
Alguém diz, te amo, com uma faca espetada na alma
de outro alguém
Alguém esquece seu nome na frente do espelho vazio
Alguém chorou o destino da pétala morta no inverno

Alguém se observa na rua cega de ilusões pueris
Alguém sente a raiva contida da humana miséria
Alguém escreve um poema sem rima nem sangue
Alguém faz das suas vísceras a corda da fuga

Alguém ainda espera o apito de um trem fantasma
Alguém bate na porta errada e deixa uma flor azul
Alguém pensa em ti como a essencialidade das brisas
Alguém que desconhece o sentido das horas não cansa

Serei esse alguém ou algum dos outros?

Flavio Pettinichi- 14-10-09

terça-feira, 13 de outubro de 2009


Escavei em mim procurando desenterrar a palavra escondida
Fui achando vestígios de civilizações de sentidos inertes
Aprofundei-me nas trevas de insanos e apócrifos versos
A palavra foge em silêncio quando o grito está na espreita

Houve noites e dias onde o caos era absoluto reino
Então o gutural desgarro do homem era seu próprio tormento
Eu vi na lasca da pedra sua ancestral ferida de espanto e medo
Eu senti no pulsar dos elementos o estrondo e o calor do magma

Queima a palavra quando o frio congela a garganta e o momento
Dói a palavra quando não se tem exílio nem desterro certo
Afoga a palavra quando na escuridão cegamos num lampejo
Mata a palavra na agonia sem espaço dos amantes sem tempo

Escavo em mim na procura do tesouro olvidado no deserto
Na procura da luz...passam as tormentas, como passa o tempo.

Flavio Pettinichi- 13-10-09

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

outubro de 2009- Fotografia : Flavio Pettinichi
Modelo: Adriana- Cabo Frio - RJ.